Quando falamos em tratamento de feridas, o objetivo não deve ser apenas escolher um curativo que cubra a lesão. Em alguns casos, é preciso criar condições para que a ferida evolua mais rapidamente, preparando o leito para o fechamento e reduzindo o tempo que o paciente permanece em tratamento.
É justamente nesse contexto que entra o chamado curativo a vácuo, tecnicamente conhecido como Terapia por Pressão Negativa (TPN).
A tecnologia utiliza uma pressão negativa controlada aplicada sobre a ferida por meio de um sistema completamente vedado. Esse mecanismo ajuda a remover o excesso de secreção, diminuir o edema, aproximar as bordas da ferida e estimular a formação do tecido de granulação, que é uma das etapas fundamentais para o processo de cicatrização.
Mais do que um curativo: uma estratégia de cicatrização
Um dos principais diferenciais da terapia a vácuo é que ela pode ser utilizada estrategicamente durante determinadas fases do tratamento.
Isso significa que o paciente não necessariamente permanecerá com o aparelho até a cicatrização completa. Em muitas situações, a Terapia por Pressão Negativa é utilizada por um período para acelerar a formação de um leito adequado, controlar a quantidade de exsudato ou reduzir as dimensões da ferida. A partir daí, o tratamento pode seguir com outras tecnologias de curativos ou, dependendo do caso, com fechamento cirúrgico, enxerto ou outras estratégias.
Por isso, quando corretamente indicada, a TPN pode ajudar a encurtar etapas importantes do processo de cicatrização e reduzir o tempo global de tratamento. A literatura também demonstra benefícios relacionados à evolução da área e profundidade de determinadas feridas e à menor frequência de trocas em alguns cenários clínicos.
Para quem convive há semanas ou meses com uma ferida, ganhar tempo de cicatrização não significa apenas fechar a lesão mais cedo. Significa também reduzir o período de limitações, trocas frequentes de curativos, deslocamentos para atendimento e impacto da ferida na rotina.
Existem diferentes tipos de curativo a vácuo
A Terapia por Pressão Negativa evoluiu muito nos últimos anos e atualmente existem sistemas diferentes, permitindo que a escolha seja adaptada às características da ferida e à rotina do paciente.

Os sistemas com reservatório, também chamado de canister, possuem um recipiente onde o líquido retirado da ferida é armazenado. São especialmente úteis em feridas maiores, mais profundas ou com quantidade importante de exsudato. O equipamento controla continuamente a pressão aplicada e o conteúdo drenado é direcionado para o reservatório.
Também existem os sistemas ultraportáteis e de uso único, alguns deles sem reservatório externo. Nesses dispositivos, o próprio curativo é desenvolvido para absorver e evaporar parte da umidade retirada da ferida. São equipamentos pequenos e leves, que podem facilitar a mobilidade e permitir que pacientes selecionados mantenham boa parte de suas atividades habituais durante o tratamento.
É importante destacar que “portátil” não significa necessariamente menos potente ou menos eficiente. A escolha entre um sistema com reservatório ou um modelo ultraportátil depende principalmente do tamanho e profundidade da lesão, quantidade de secreção, localização da ferida e objetivo terapêutico.
Quando o curativo a vácuo pode ser indicado?
A Terapia por Pressão Negativa pode ser utilizada em diferentes situações, incluindo feridas traumáticas, feridas cirúrgicas abertas ou com deiscência, lesões por pressão, algumas feridas relacionadas ao diabetes, feridas complexas com perda de tecido e preparação do leito para enxertos ou reconstruções. Também existem aplicações específicas sobre incisões cirúrgicas fechadas em pacientes selecionados.
Entretanto, a presença de uma ferida difícil não significa automaticamente que o paciente precise de terapia a vácuo. Antes da indicação é necessário avaliar circulação sanguínea, presença de tecido desvitalizado, infecção, profundidade da lesão, estruturas expostas, quantidade de secreção e condições clínicas do paciente.
E quando o curativo a vácuo não deve ser utilizado?
Existem situações em que a terapia pode ser contraindicada ou exigir cuidados especiais. Entre elas estão sangramento ativo ou elevado risco de hemorragia, tecido necrótico ainda não adequadamente removido, osteomielite não tratada, algumas fístulas não investigadas, presença de tecido tumoral na ferida e contato direto do sistema com vasos sanguíneos importantes, órgãos ou outras estruturas vulneráveis. Quadros de isquemia importante também precisam ser avaliados antes da utilização da pressão negativa.
Feridas infectadas também exigem atenção. A Terapia por Pressão Negativa pode fazer parte do tratamento de algumas feridas contaminadas ou infectadas, mas não substitui limpeza adequada, desbridamento, controle da causa da infecção e antibioticoterapia quando esta estiver indicada.
O melhor curativo é aquele que faz sentido para aquela ferida
A Terapia por Pressão Negativa é uma das tecnologias disponíveis atualmente para o tratamento de feridas, mas seu maior benefício aparece quando existe uma indicação precisa e um objetivo bem definido.
Na Cicatriclin, a decisão sobre utilizar ou não o curativo a vácuo é feita a partir da avaliação da ferida e das condições clínicas de cada paciente. Quando indicado, o objetivo é incorporá-lo como parte de uma estratégia de cicatrização: fazer a ferida avançar, superar fases em que a evolução está lenta e buscar o melhor caminho para que o paciente permaneça o menor tempo necessário em tratamento.
Porque, no fim, tecnologia no tratamento de feridas não deve significar apenas utilizar um curativo diferente. Deve significar utilizar a ferramenta certa, no momento certo, para ajudar a cicatrização a avançar.
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